4/11/2012

Prezada,

Perdoe-me o avançado da hora em que escrevo, mas preciso pedir-te um pequeno obséquio. Por acaso lembras das coisas minhas que ficaram contigo? A ponta de encanto, o entusiasmo, o brilho nos olhos e a graça que sentia da vida? Pois então, preciso que as mande de volta.

Mas por favor, não entenda mal: não falo do amor que te dei e guardaste naquela gaveta,no escritório de tua mãe. Não, esse é teu. Foi dado sem hesitação, sem demoras ou condições. Que seja sempre um presente. E que, aliás, te sirva para algo, para acalentar tuas frustrações nas tardinhas de domingo, ou de anedota, à mesa, com as amigas. Claro, volta e meia quero dele notícias, dado que é pedaço perdido de mim. Por vezes sinto, se não falta, um cantinho de saudade.

Mas envia as minhas coisas, se não é pedir demais. Pretendo usá-las sexta-feira, para impressionar certa moça que conheci. Tem olhos negros como os teus, mas cabelos longos. Tem um sorriso bonito como o teu, mas me faz sorrir. Nos encontraremos lá onde te vi pela primeira vez, só que ao sol. Por favor não se ofenda ou magoe: perdoe-me a falta de originalidade e até a indelicadeza.

Ocorre que, antes de original, ocupo-me de ser feliz.

3/20/2012

Duas irmãs

Eram duas irmãs assim, nem feias, nem bonitas
mas de uma cor de dar inveja ao pecado
E um colo simpático, a pedir atenção.
Quis conhecê-las a fundo,
Amiúde,
Em detalhes,
Ambas,
Como uma comédia de Rodrigues.

Com tantas pernas me cativas

Derrama nos meus olhos essa certeza de amor
Vem tórrida, quente.
Provoca minha gula, que te quero inteira.
Esvair-me em teus seios, ver-te ferver em ansiedade.
Lembro da inveja de mim hoje, que sentirei amanhã.
És armadilha, já não me escapo.
Com tantas pernas me cativas
Quanto notas de prazer urras e sussurras
Neste aguardo febril.

O grande sono

Acima de tudo, o grande sono
que desrespeita e desfaz os cotidianos.
Um cinza outonal descende sobre as almas
e as convida à prostração.

Um frio escondido no mormaço,
descaso precípuo e geral,
o inverno dos homens se faz anunciar.

2/06/2012

Minhocas

Com o tempo, mesmo as memórias ganham um tom sépia.
Nem a viva cor das explosões de então,
nem o preto, branco e chumbo da queda.
Não há porque lutar por um espólio etéreo.
O morto está velado,
Que fique para as minhocas.

2/05/2012

Esconde - Esconde (2004)

Ah! Mas é assim?
Assim, desse jeito?
Quer brincar de esconde-esconde?
Eu não quero.

Eu não quero mais.
Não gosto dessas brincadeiras.
Não gosto das brincadeiras
Que machucam.

Ah!Mas você
Nunca se machucou
Brincando de esconde-esconde...
Que bom!
Pra você.

Pra mim,
Não.

Eu não quero continuar brincando.
Eu queria mesmo é descansar
Descansar bastante!
Não é preciso brincar para se divertir.

Até porque eu já me machuquei
Brincando.
Brincando de cabra-cega,
Esconde-Esconde,
Pega-pega.

Fui pego pra bobo.
Na casca do ovo.
Bilu,
Bilu,
Tetéia.

Você nunca se machucou brincando?
Não?
Nem um feridinha,
Pra tirar casquinha depois?

Duvido.
É por isso que eu não brinco mais
De esconde-esconde.
Você desiste no meio...

Eu fecho os olhos,
Viro pro muro,
Pra não ver nada!
E conto até cém.

Mas daí termino,
Desviro e vejo:
Você desistiu de mim
E foi brincar com alguém...

2/04/2012

Novo de novo no front.

Variando-se as variáveis
Encontram-se solucionáveis
Problemas indizíveis
Palavras sofríveis
Variando-se as variáveis em diversos níveis.

De que adiantam soluções,
Se os problemas persistem?
Resolva um agora,
Outros brotam em nuvens.

Da frente ocidental,
Não há nada de novo.
Mandam-me notícias,
Velhíceas,
o impasse continua.

O avanço, sangrento,
Faz-se palmo a palmo,
Faz-se retrocesso,
Em cada contra-ataque intestino.

Juntam-se as paredes
Atacam-nas com cabeças
Ataque com sua,
Manche-as com seu sangue,
As paredes caiadas, o tijolo, a rua.

Deixe-se levar.
Vem, que o reboco está fresquinho!
Quem precisa de apoio
Quando se pode dormir
Dormir, dormir,dormir...

Vamos, diga: o que tens feito de novo?
O que fizeste novamente?
O que repetes à exaustão? Nada?

De minha parte, só durmo.